2006, Belo Horizonte – MG: “A Casa dos Espelhos” – Celma Albuquerque Galeria de Arte.

Objeto De Parede; Sem título: 215cm x 160cm

Detalhe ampliado

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A CASA DOS ESPELHOS OU SEIS ARTISTAS À PROCURA DE UM ESPECTADOR


... a vida é cheia de infinitos absurdos, os quais, descaradamente, nem ao menos têm
necessidade de parecer verossímeis. (...) Porque esses absurdos são verdadeiros.
[LUGI PIRANDELLO, Seis personagens à procura de um autor, 1921]


Logo na entrada, uma cama, que parece ter saído de um filme surrealista, multiplica vozes e sombras. Ao seu lado, duas cadeiras dão-se as mãos, prometendo aconchego. Depois delas, três mesas: as vitrines nos vendo passar na galeria. A seqüência é interrompida no grande salão por uma série de pequenas caixas em prateleiras, os letreiros a nos colorir... Embaraçando a nossa visão, quadros nas paredes, desenhos, pinturas e objetos domésticos diversos solicitam recombinações possíveis. Mais adiante, como que a formar um papel de parede em branco e preto, fragmentos de imagens e textos observam imóveis outras imagens e números aprisionados em relógios de paredes, que (de-)marcam uma arquitetura do tempo perdido... Há ainda os banheiros, repletos de anúncios como aqueles publicados nos jornais, fechando o salão e nos convidando a uma experiência de intimidade.
Ao passarmos em exposição, como que embalados pelo som de uma conhecida música, eis a imagem refletida nos nossos olhos: uma estranha galeria de espelhos da casa! Nesse lugar a partir do qual tudo se funde e confunde ― a casa, cuja polissemia vai do substantivo ao verbo ―, as conexões que se estabelecem entre os pares nem sempre deixam de ser complexas.
Constituição de uma instância e de um lugar, habitação de pessoas e coisas, de objetos e afetos, moradores e hóspedes, a casa é o espaço onde se revolvem hábitos, vivências, tempos, histórias. As residências particulares foram os primeiros domicílios das coleções, dos museus e, de acordo com Jacques Derrida, dos arquivos, antes da “passagem institucional do privado ao público”. O filósofo observa ainda que nestas domiciliações se concentravam as funções de unificar, identificar, classificar, interpretar e consignar elementos heterogêneos; entretanto, consignar significa também, para além do seu sentido corrente, reunir os signos.
Desse modo, a galeria de arte como agente institucional e consignador do produto estético, também descende da casa. Ao reunir numa galeria uma coleção de signos que remetem à casa, os artistas aqui apresentados promovem o espelhamento dessa genealogia e potencializam os sentidos de suas obras. O que estimulará o espectador mais atento a buscar relações entre os trabalhos e o próprio espaço expositivo, não apenas na sua condição topológica como também na sua dimensão simbólica. São exemplares desse procedimento as instalações de Alan Fontes, Joana de Holanda e Rafael Soares.
A idéia de consignação está presente também, de diferentes maneiras, em todos os artistas dessa mostra ― que se apropriam e reúnem imagens e formas do seu tempo e de outros, movimentando memórias para fazer falar ao outro aquilo que lhes é íntimo, pessoal, secreto ― e, de forma mais evidente, nas obras de" Patrício ", Marco Antônio Poubel e Rodrigo Mogiz. Pois que consignar, na prática artística contemporânea, não é apenas manipular e fazer coincidir signos dispersos ou estabelecer associações de qualquer tipo, mas uma ação por novas temporalidades, pelo encantamento do outro olhar, pelo encontro do eu com o mundo.
Parodiando os personagens da famosa peça teatral de Pirandello acima citada, os seis artistas que aqui fizeram morada estão à procura de um espectador-autor – ou seria um hóspede? --, pronto a refletir e deixar-se refletir nessa casa de múltiplos espelhos.


LUIZ FLÁVIO
Artista e professor em cursos de pós-graduação
na PUC-Minas e Escola Guignard/UEMG.





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